Três horas de session. Você ta no late reg do Bounty Builder $22, registrou mais dois $11 pra “aproveitar o horário”, e de repente se pega dando call num 3-bet com K9o fora de posição porque “o cara ta agressivo”. Você folda no flop. Perde 18bb de stack inicial. Próxima mão, abre 7-5s UTG+1 num torneio de 180 entries.

Você sabe que isso é errado. Sabia antes mesmo da mão começar. Mas jogou mesmo assim.

Bem-vindo ao C-game.

Todo jogador / player sério já passou por isso. A diferença entre quem tem ROI consistente no field de $11-$109 e quem fica patinando breakeven não ta no A-game — porque quando você ta no A-game, joga parecido com qualquer reg competente do mesmo stake. A diferença mora em quanto tempo cada um passa jogando a pior versão de si mesmo.

E aqui vai a notícia chata: seu C-game provavelmente custa mais que qualquer leak técnico que você ta estudando agora. Você pode decorar todas as ranges do HRC, treinar ICM até sonhar com nodes, e ainda assim queimar meses de estudo em 40 minutos de decisões automáticas na sexta de madrugada.

A gente vai destrinchar o que é C-game de verdade, por que ele aparece mesmo quando você jura que ta “focado”, e o framework que Tommy Angelo chamou de lopping off — cortar fora sua pior performance em vez de tentar elevar a melhor. Spoiler: é mais barato e funciona melhor.

O que é C-game no poker (e por que ele decide sua winrate)

O framework A/B/C-game vem do Tommy Angelo, que já falava disso em Elements of Poker bem antes do campo de mental game virar o que é hoje. Jared Tendler pegou o conceito e popularizou no circuito. A ideia é simples, mas a implicação é pesada.

Seu A-game é a melhor versão sua na mesa. Foco travado, hand reading afiado, você considera múltiplas linhas antes de agir, ajusta contra cada vilão. Seu B-game é o padrão — decisões sólidas, poucos overthinkings, poucos erros grosseiros. É onde você passa a maior parte do tempo quando ta descansado e registrando volume normal.

O C-game é a pior versão. Não é catástrofe. É aquele conjunto de decisões que você, revisando amanhã de manhã com café na mão, identificaria como erradas em menos de 5 segundos. O C-game raramente é espetacular. Geralmente é burocrático.

E aqui ta a parte que quase ninguém interioriza: o field de $11-$109 joga o A-game parecido. Regs competentes sabem ranges pré-flop padrão, sabem defender BB com spots certos, ‘sabem que não dá pra callar 3-bet OOP com K9o’. O gap entre você e o reg mediano ao seu lado, quando ambos estão no A-game, é marginal.

A diferença real — a que aparece no gráfico anual — mora em quanto tempo cada um passa no C-game.

Angelo tem um conceito chamado Reciprocality: seu lucro vem da diferença entre o que você faz e o que o oponente faz em spots parecidos. Se você ta no C-game enquanto ele ta no B-game, você ta transferindo dinheiro mesmo com mãos “corretas”. A edge evapora não porque você esqueceu teoria, mas porque a versão de você que ta executando a teoria é a degradada.

C-game não é fraqueza. É estado.

Como o C-game se manifesta em MTTs (não é só spew óbvio)

Os sintomas barulhentos

Esses você já conhece: shove de 8-2o em early position numa mesa 9-handed porque “fodas, to cansado”.

Call no bubble que você nunca daria fresh às 7 da noite. Click-back 4-bet pequeno com TT que você transforma em call porque “tem equity”. Hero call no river com ace-high porque o timing do vilão “parece estranho” — só que você ta na hora 7 e seu detector de timing já foi dormir.

Esses são os óbvios. A gente nota, lembra, e jura que não vai fazer de novo.

Os sintomas silenciosos (mais caros)

Esses drenam mais EV porque você nem registra. Open-fold de spots marginais em late-reg porque abrir significa jogar pote e você não ta a fim. 3-bet standard contra open de CO que você só call porque “não quero inflar”. Pular hand reading contra vilão desconhecido na direita — você só olha stats do HUD e decide, sem nem pensar em qual range ele tem pra aquela linha específica.

C-bet automático em board que não conecta com sua range. Check-back turn porque você esqueceu que tinha um plano de bet-bet. Min-defense de BB com mãos que deveriam foldar num spot ICM apertado porque “preço é bom”.

Nada disso grita. Mas somados, custam mais que um punt ocasional.

A curva típica de uma session de 8 horas

Padrão recorrente: A-game nas duas primeiras horas, B-game até a quinta, e aí o C-game começa a aparecer em flashes — geralmente no momento exato que o primeiro torneio chega no bubble, exigindo atenção máxima. Ironia cruel. Quando o spot mais importante chega, seu cérebro já gastou o orçamento de decisão do dia.

E aqui vai a observação contraintuitiva: seu C-game geralmente NÃO aparece quando você ta perdendo. Tilt de derrota todo mundo vê chegando. O C-game perigoso aparece quando você ta cansado, com fome, ou ganhando e relaxado. Você bustou três torneios, ficou com um stack bom no quarto, e relaxa. Relaxar é o gatilho. O foco cai porque “ta tudo indo bem” — e aí vem o call marginal no river que não precisava ter sido feito.

Gráfico de qualidade de decisão ao longo de uma session de poker

De onde vem o C-game — as 3 fontes reais

Fadiga cognitiva

Decisões são finitas. Isso não é motivacional, é neurociência básica. Depois de 6-7 horas registrando múltiplas mesas, seu córtex pré-frontal — a parte que faz hand reading, calcula ICM, inibe impulsos — ta operando com bateria baixa. O cérebro começa a tomar atalhos. Heurísticas substituem análise.

“Ta agressivo, vou pagar.” “Tenho top pair, não dá pra foldar.” “É 60bb efetivo, shippa.” Essas frases são atalhos. Às vezes certos, às vezes erradíssimos. No A-game você diferencia. No C-game todas viram default.

Gatilhos emocionais não resolvidos

Aqui entra a camada do Tendler. O Mental Hand History é a ferramenta que ele criou pra mapear os padrões emocionais recorrentes — aquele tipo de spot específico que dispara reação desproporcional em você. Não vamos abrir aqui porque foge do escopo, mas a lógica é: se você tem um gatilho não resolvido (tipo, sempre tilta quando perde all-in pré-flop com AK), ele vira porta de entrada pro C-game mesmo quando você ta descansado.

Se quiser destrinchar isso, a gente tem artigos dedicados sobre o que é tilt no poker e os tipos de tilt e como resolver cada um. O sistema completo do Tendler cobre de onde vêm os gatilhos até como eliminá-los na raiz.

Falta de estrutura pré-sessão

Jogador abre o lobby, registra 6 torneios, entra na primeira mão sem nem olhar pra mesa direito. Sem warm-up, sem plano de session, sem definição de quando para. O C-game vira default porque não existe estrutura que empurre pro B-game.

Generalizar: ‘Até jogadores com décadas de experiência e múltiplos títulos já foram flagrados perdendo compostura depois de pots consecutivos perdidos.’ Ninguém é imune. Se o cara com mais braceletes da história escorrega, seu C-game não é falha de caráter — é condição humana que precisa de design, não de força de vontade.

Lopping off the C-game — a única estratégia que realmente move o ponteiro

Angelo chama de lopping off. A ideia é quase ofensiva na simplicidade: você não precisa melhorar seu A-game pra ganhar mais. Precisa cortar o pior 10% da sua distribuição de decisões.

Pensa em termos de EV agregado. Seu A-game já é bom o suficiente pra vencer o field de $11-$109. O que puxa sua winrate pra baixo não é teto insuficiente — é piso péssimo. Cada sessão de 40 minutos em C-game no final da noite paga pelo estudo de ranges que você fez durante a semana toda.

Distribuição de decisões e o conceito de lopping off

Identificar seu C-game específico

Não existe “C-game genérico”. Existe O SEU. E ele tem assinatura.

Talvez o seu apareça sempre depois da hora 6. Talvez quando seu stack efetivo passa de 40bb pra 25bb e você entra em modo “jam ou fold” mental mesmo com 22bb ainda sendo stack jogável. Talvez quando tem um reg agressivo conhecido à sua esquerda e você começa a evitar spots marginais que deveria tomar. Talvez quando você ta ganhando três buy-ins e relaxa no quarto torneio.

Sem identificar seu padrão específico, você ta lutando contra fantasma. Com padrão identificado, vira problema de engenharia.

Quit points pré-definidos

Regra objetiva de parada, escrita antes da session começar. Não negociável no momento.

Exemplos que funcionam: “Depois de 6 horas jogadas, não registro novo torneio.” “Se passar das 2h da manhã, encerro independente de stack.” “Se perdi 3 buy-ins consecutivos de stack inicial por decisão questionável (não bad beat), paro 30 minutos pra reset.” “Se eu me pegar olhando o celular entre mãos mais de duas vezes numa orbit, encerro a próxima mão.”

Parar no C-game não é fraqueza. É ROI. Cada mão jogada em C-game tem EV negativo contra a mesma mão jogada em B-game. Não jogar é lucrativo.

Isso conecta com os 4 pilares da performance no poker — quit points caem no pilar de gestão de energia, que a maioria trata como secundário e é provavelmente o mais importante.

Checklist prático: 6 movimentos pra blindar suas próximas sessions

  1. Warm-up de 10 minutos antes de registrar. Revisar 5 mãos random do seu último review, passar os olhos num range chart específico (tipo BB vs CO open, ou ICM push/fold de 15bb). Não é pra estudar — é pra ligar o cérebro no modo poker antes da primeira mão valer dinheiro.

  2. Horário máximo de registro definido. Não “hoje paro quando cansar”. Paro às 23h. Fim. Se o cansaço chegar antes, paro antes. Mas nunca depois.

  3. Selecionar volume pelo estado, não pela vontade de ação. Dia ruim de sono, registra 3 torneios em vez de 8. Vontade de jogar muito raramente correlaciona com capacidade de jogar bem.

  4. Break de 15 minutos a cada 2 horas, não-negociável. Sai da cadeira. Não é pausa pra mexer no celular no mesmo ambiente. É saída física, água, alongamento, silêncio. Reseta o foco.

  5. Tag no HUD ou notes pra mãos suspeitas de C-game. Na hora que você joga uma mão e um pedaço seu pensa “isso foi estranho”, marca. Não analisa no momento. Marca. Revisa depois da session. Padrão emerge rápido.

  6. Revisão semanal focada em padrões de C-game, não só leaks técnicos. A maioria dos jogadores revisa pra achar o erro de range. Revisa também pra achar o horário, a situação, o tipo de mesa onde o erro aconteceu. Leak de contexto custa mais que leak de range.

Pra montar uma rotina mais completa em volta disso, tem o artigo sobre a rotina perfeita de um jogador profissional e também como estudar poker de forma eficiente em 2026.

O erro que quase todo jogador / player de $11-$109 comete

Quase todo mundo trata C-game como problema de disciplina. Não é.

Disciplina é recurso finito, ainda mais depois de 5 horas de multi-tabling. ‘tentam usar força de vontade no momento exato em que ela já se esgotou — no final do dia.’ Falham previsivelmente. Depois se culpam por serem “sem disciplina”, o que só adiciona camada emocional ao problema.

Jogadores que resolvem isso não tentam mais. Estruturam o ambiente pra que o C-game não tenha espaço pra entrar. Limite de horário é ambiente. Break obrigatório é ambiente. Não registrar torneio depois das 22h é ambiente. Volume menor em dia ruim de sono é ambiente.

Opinião impopular: melhor jogar 3 dias por semana em A/B-game que 6 dias com 40% de C-game. O volume a mais em estado degradado não compensa. Na verdade, subtrai.

Comparativo visual de qualidade vs volume

Fechando — C-game é seu maior leak mensurável

C-game não é fraqueza de caráter. É subproduto previsível de fadiga cognitiva + gatilhos emocionais não resolvidos + ausência de estrutura pré e durante session. Três variáveis, todas modificáveis por design.

E aqui vai o insight que move o ano inteiro: a maioria dos jogadores / players estuda pra subir o teto — solver, ranges, ICM, spots específicos. Isso eleva o A-game. Só que A-game só aparece 20-30% do tempo. Estudar pra subir o piso — cortar o C-game, reduzir as horas em estado degradado, blindar a rotina — mexe com os 70% restantes. O piso move o resultado anual muito mais que o teto.

Seu A-game já é bom o suficiente. Seu C-game é que ta te custando caro.


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